Fiz cidade inteira de criança rir. Menos a minha filha.
Meu nome é Mauro, tenho 70 anos. Fui palhaço de circo desde os dezesseis. Toda cidade que eu chegava, tinha fila de criança querendo me ver.
Mas a minha única filha nunca deu risada pra mim. Porque eu passei mais tempo numa carreta de circo do que ao lado da menina que eu mais amava no mundo.
Ela morreu no parto da Sofia. Não deu tempo de consertar nada.
Mas naquele dia eu prometi pra mim mesmo: eu não ia errar duas vezes.
Hoje, a minha plateia é uma só.
A Sofia tem 6 anos e me chama de pai. Toda sexta, eu ainda me pinto de palhaço só pra ela.
Ela senta no chão, bate palma antes de eu começar, e ri de tudo — até do que não tem graça.
"Eu faço isso porque não sei quando vai ser a minha última apresentação pra ela. Nem quando vou ver aquele sorriso pela última vez."
— Mauro, 70 anos
Meu coração virou pedra.
Eu tenho estenose aórtica grave. É uma válvula que tinha que abrir toda vez que o coração bate. A minha não abre mais.
O SUS opera de peito aberto, mas o meu coração não aguenta desse jeito. A cirurgia que ele aguenta é por cateter — e essa tem um preço que eu não consigo pagar sozinho.
E o meu maior medo não é morrer. É o dia seguinte. Se eu não estiver aqui, a Sofia vira uma criança do Estado.
Tem uma caixa em cima do meu guarda-roupa.
Dentro dela, tem 12 cartas e um nariz de palhaço. As cartas são para os próximos aniversários da minha neta.
Mas eu, provavelmente, não vou estar vivo em nenhum deles.
Por isso eu fiz a única coisa que sei fazer: montei o meu último espetáculo.